O voto, o espelho e o coletivo: o que a eleição revela sobre a nossa própria psique?
Outubro chega e o ar parece mais denso. Onde quer que a gente olhe, há debates acalorados, defesas apaixonadas, medos expostos e uma sensação de urgência que toma conta das conversas. Períodos...

Outubro chega e o ar parece mais denso. Onde quer que a gente olhe, há debates acalorados, defesas apaixonadas, medos expostos e uma sensação de urgência que toma conta das conversas. Períodos eleitorais têm essa força: eles funcionam como um holofote que ilumina não apenas as propostas e as falhas dos candidatos, mas, acima de tudo, o estado emocional da nossa sociedade.
Cá entre nós, quando a política bate à porta, ela não traz apenas questões administrativas. Ela aciona nossas memórias de escassez, nossa dor diante da injustiça, nossos desejos de segurança e a nossa eterna busca por pertencimento.
A verdade é que a eleição é um espelho amplificado da psique coletiva. E, como todo espelho, às vezes ela nos mostra coisas que preferíamos não ver.
Em momentos assim, é quase natural a tentação de cair no arquétipo do “salvador”. Projetamos no líder público a responsabilidade total por curar dores que, em grande parte, atravessam a nossa história e a nossa convivência diária. Transferimos para o externo a urgência de uma mudança que muitas vezes hesitamos em fazer na nossa própria vida. Mas o tecido social não é algo abstrato que existe “lá fora”, governado por pessoas distantes. Ele é um organismo vivo.
Existe um movimento circular — um autêntico vórtice — que conecta o nosso mundo interior com o mundo exterior.
Tudo começa no eu: nas nossas escolhas diárias, nas frustrações que guardamos, na forma como lidamos com a frustração e na nossa capacidade (ou falta dela) de escutar o diferente. Esse eu se derrama na forma como tratamos a família, o parceiro e as nossas parcerias de vida. Dessa relação com o outro, nasce o clima da nossa rua, o respeito no trânsito, a gentileza na fila do mercado e o cuidado com o bairro. O acúmulo desses micro-mundos é o que dá corpo à cidade, ao estado e ao país.
Não existe uma linha que separa o indivíduo do coletivo. O macro nada mais é do que o micro multiplicado.
Cobrar políticas públicas eficientes, exigir ética e usar a nossa voz e o nosso voto são atos fundamentais de cidadania e de presença no mundo. A espiritualidade e a maturidade emocional não nos alienam da realidade; ao contrário, nos chamam para a responsabilidade. O sagrado também habita a nossa capacidade de cuidar do bem comum.
Mas a pergunta que fica quando a poeira das urnas baixa é sobre o que sobra de nós no dia a dia. A cidade que queremos começa na postura com que caminhamos por ela.
Por isso, neste mês em que tanto se fala sobre o futuro do coletivo, deixo uma pergunta para a gente remoer por dentro:O que você tem cobrado da política da sua cidade que, na verdade, é uma postura, uma gentileza ou uma transformação que precisa começar hoje, na sua própria vida e nas suas relações?
Créditos imagem: IA


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